Um dos maiores desafios do conceito de Gestão de Pessoas é levar as pessoas a se comprometerem com as mudanças. Ontem estava conversando com minha esposa sobre a diferença entre responsabilidade e cobrança e usei o exemplo da GRSA. Entre no site da empresa e saiba mais sobre ela: http://www.grsa.com.br/site/index.htm
É uma empresa de alimentação. Mas, como a maioria das empresas nacionais se
viu em uma situação que “teve” que optar pela Gestão de Pessoas. A entrevista da Revista Exame de fevereiro de 2008 traz um breve relato sobre essa mudança estratégica da empresa que a levou a ser uma líder nacional no ramo. Mas, continuemos a falar sobre a diferença entre cobrança e responsabilidade. A cobrança é uma meta comum a todos que é estipulada por um terceiro, mas a responsabilidade é uma ação que parte do individuo que compreende (sem coerção) a necessidade de fazer aquilo que lhe é pedido. Uma coisa é acatar uma ordem, outra é compreender uma tarefa. Na maioria dos casos funcionários acatam ordens, mas não compreendem as tarefas que lhes são dadas.
Vou exemplificar no caso da GRSA. A empresa sempre cobrou resultado de suas equipes, no entanto nunca lhes deu a chance de serem responsáveis por esses resultados. A tarefas existia mesmo sem existir uma responsabilidade coletiva em relação a ela. A diferença é que a tarefa que existe sem responsabilidade torna-se uma coisa chamada problema. Não estou sendo contraditório nem filosófico, estou sendo objetivo.
A gerente de um setor da empresa afirma na reportagem: “antes não
tínhamos autonomia nem para prospectar clientes, entre escolas e hospitais”. A empresa era centralizadora e não delegava funções transformando seus funcionários em autômatos. Um problema começou a existir a partir disso: a captação de clientes se tornou baixa e dispendiosa: "no antigo modelo, funcionários da companhia em São Paulo - chefs de cozinha e nutricionistas - viajavam até setes vezes para fechar um único contrato. (Em alguns casos a despesa equivalia a metade das vendas de um mês da nova operação)" (Revista Exame, fevereiro de 2008)
E o resultado desta centralização é a redução drástica da iniciativa dos funcionários e do lucro da empresa. A iniciativa continuava a existir nos funcionários, mas de forma adormecida. Você paga por funcionários responsáveis e leva funcionários morbidos. A culpa não é deles, mas do modelo de gestão que não privilegia pessoas e sim cargos e títulos (quem não é chefe ou nutricionsita não tem competência para fechar bons negócios. Tem que ser especializado!)
Mas, nada melhor do que o mercado para fazer as coisas andarem (ou afundarem) para as empresas. Na medida em que se centraliza processos se concentra poder e se tem a ascensão de super-estrelas da administração e, consequentemente, dos gastos supérfluos. Logo em seguida vem o aumento do custo operacional destes processos e a conseqüente taxa de lucro. A partir deste ponto se tem duas saídas: descentralizar ou falir.
A descentralização do poder é uma tentativa de reverter sucessivos fracassos na expansão de novos serviços da GRSA pelo país. Não tínhamos uma estrutura para transferir conhecimento dos novos segmentos para as regionais e víamos que o modelo estava se tornando economicamente inviável” diz Paulo Pires, presidente da GRSA. (Revista Exame, p.84)
De uma empresa centralizadora a GRSA passou ser um modelo de descentralização apostando em um novo modelo de Gestão de Pessoas onde os empregados eram orientados a serem mais empreendedores: “Zuleica Nunes, gerente de operações do escritório de Recife, agora negociamos até se vamos servir batatas ou inhame”. A autonomia revela a capacidade de dar responsabilidade as pessoas. Elas se sentem responsáveis na medida em que podem ver os resultados de ações refletidas na face de seus clientes. Uma outra gerente afirma:
Em Recife, por exemplo, os alunos da escola operada pela franquia da cidade recebem uma alimentação a base de inhame e carne-de-sol nos lances da manha e da tarde. O conhecimento da cultura local nos ajuda a entender o que os clientes querem e a adaptar a operação com mais rapidez.
Veja que antes desta transformação organizacional era
uma gerente paulista (nutricionista) que afirmava o que os alunos da escola de Recife deveriam consumir. Com certeza ela não recomendava jabá (carne de sol) e inhame para eles preferindo uma salada e um filé de peixe. Legal, uma opinião acadêmica e responsável, mas o cara lá em Recife não esta nem ai para sua tese de doutorado sobre o valor nutritivo dos peixes. O aluno quer jabá! A gerente regional sabe disso, mas e a nutricionista sabe?
A implementação de um processo de Gestão de Pessoas passa pela questão da responsabilidade que não significar responsabilizar alguém por aquilo em que ele não é autor ativo. Essas gerentes regionais tem o maior prazer de fazer comida regional. Elas sabem apenas pelo olhar contratar uma expert em carne de jabá (mas, se sentem deslocadas quando tem que contratar alguem que faça filé de peixe ou estrogonofe). Descentralizar e delegar responsabilidades facilita tudo: desde a contratação de pessoal até o atendimento do cliente final.
E será que o pessoal do RH da GRSA não se atentou para isso antes? Tenho certeza que sim! Mas, e o modelo de negócios da empresa? Impedia iniciativas assim? Mas, não se preocupem porque quando a empresa começar a dar prejuízo os ouvidos da direção sempre se abrem! Então tenha sempre a mão um prjeto de Gestão de Pessoas, pois mais cedo ou mais tarde você vai precisar...