Na medida em que a paisagem vai ficando mais
“artificial” é possível identificar claramente a intervenção humana em termos
de produtividade. Através das técnicas os instrumentos de trabalho são
aperfeiçoados se tornando cada vez mais eficientes “os instrumentos de trabalho estão ligados ao processo
direto de produção, isto é, produção propriamente dita, também o estão a
circulação, distribuição e consumo” (pag 66). A paisagem urbana é
resultado da eficiência destes instrumentos, no entanto nem todos os
instrumentos tem a mesma idade (ou seja, uns são mais sofisticados que os
outros o que resulta em uma intervenção maior ou melhor). Daí o fato das
grandes cidades serem tão heterogêneas (tão diferentes umas das outras e
diferentes mesmo em aspectos internos - bairros, ruas, regiões etc). Essa
heterogeneidade é resultado dos diferentes instrumentos de trabalho e seus
diferentes tempos e diferentes eficácias.
“A paisagem não se
cria de uma só vez, mas por acréscimos, substituições; a lógica pela qual se fez
um objeto no passado era a lógica da produção daquele momento. Uma paisagem é
uma escrita sobre a outra, é um conjunto de objetos que tem idades diferentes,
é uma herança de muitos diferentes momentos. Daí vem a anarquia das cidades
capitalistas. Se juntos se mantêm elementos de idades diferentes, eles vão
responder diferentemente as demandas sociais. A cidade é heterogeneidade de
formas, mas subordinada a um movimento global. O que se chama desordem é apenas
uma ordem do possível, já que nada é desordenado. Somente uma parte dos objetos
geográficos não mais atende os fins de quando foi construída. Assim a paisagem
é uma herança de muitos momentos já passados” (pag 66)
A cidade é resultado nestas intervenções produtivas de
tempos diferentes resultando em um conjunto de sistemas integrados, mas de
tempos diferentes. Uns mais eficazes dos que os outros, mas todos integrados.
Então uma região que contém um conjunto de galpões desativados que serviam de
fábricas a um século atrás não está dissociada com a lógica da cidade, mas
apenas está em um tempo mais “lento”. Na medida em que esses galpões dão lugar
a prédios residenciais essa região volta a ter o “mesmo tempo da cidade”, mas
em termos de lógica nunca deixou de estar na cidade. Apenas o tempo era
diferente e o tempo altera a função do objeto no espaço geográfico...
7 - Uma permanente mudança
As cidades estão em permanente mudança porque as
intervenções produtivas produzidas em seu meio estão em constante mudança (por
conta das inovações técnicas) o que provoca “tempos diferentes” de intervenção.
Umas mais sofisticadas e outras nem tanto.
Os sistemas técnicos são fundamentais para compreensão
a transformação espacial “Através
de novas técnicas vemos a substituição de uma forma de trabalho por outra, de
uma configuração territorial por outra. Por isso, o entendimento do fato
geográfico depende tanto do conhecimento dos sistemas técnicos” (pag 67). A
paisagem não é um dado inerte, mas está sujeita a constantes mudanças porque as
novas técnicas estão sempre avançando na tarefa de transformar a “natureza
natural” em “natureza artificial” afim de adaptar tudo para o melhor desempenho
produtivo do ser humano. Por isso “os tempos” variam muito nas grandes
cidades...
10 - O que é o espaço
Já é possível concluir que paisagem e espaço não são
sinônimos, pois um representa um “tempo” (paisagem) e outro representa o
“movimento” (espaço). Então “O
espaço seria um conjunto de objetos e de relações que se realizam sobre esses
objetos; não entre estes especificamente, mas, para os quais eles servem de
intermediários. Os objetos ajudam a concretizar uma série de relações. O espaço
é resultado da ação dos homens sobre o próprio espaço intermediados por
objetos, naturais e artificiais” (pag 70). Pensar o espaço é
pensar em intervenção, em movimento, em técnicas e transformação espacial.
11 - A paisagem não é o espaço
Poderíamos afirmar que a paisagem é uma “imagem
parada” da realidade, mas toda realidade é fruto de intervenção humana que
resulta em transformação material e não existe transformação material sem
relacionamento social. Então a paisagem também contempla movimento e ação, mas
em uma escala muito diferente do espaço geográfico: “a paisagem é diferente do espaço. A primeira é a
materialização de um instante da sociedade. Seria, numa comparação ousada, a
realidade de homens fixos parados em uma fotografia. O espaço resulta do
casamento da sociedade com a paisagem. O espaço contém o movimento. Por isso, a
paisagem e o espaço são um par dialético. Complementam-se e se opõem” (pag 72).
Ao passar pelo centro de São Paulo as 15 horas da
tarde todos sabem que a paisagem não é a mesma as 8 horas da manhã ou as 18
horas da tarde. São 3 diferentes momentos que geram diferentes paisagens
justamente por conta do movimento de pessoas. Não podemos descrever o centro de
São Paulo como “calmo” ou “agitado” porque dependemos da variante “tempo” para
definir uma coisa ou outra justamente pelo “movimento” diferenciado que existem
entre um “tempo” e “outro”. Nós só compreenderemos esses diferentes “tempos” em
razão direta do “modelo de produção” (o horário das 8 a entrada de
trabalhadores e as 18 horas saída de trabalhadores) que tem o poder de alterar
a paisagem.
O chamado “trabalho morto” (a construção, os prédios,
a rua que foram construídos por pessoas via interação social em um dado momento
histórico - formas geográficas, objetos geográficos) revela somente parte da
lógica produtiva, mas é o trabalho vivo (o contexto social de cada época em
razão direta do modelo produtiva vigente no período) é que revela o verdadeiro
espaço. A conjugação dos dois (espaço e paisagem) é fundamental “É a maneira com que se dá a produção e
o intercâmbio entre os homens que dá um aspecto à paisagem. O trabalho morto
(acumulado) e a vida se dão juntos, mas de maneiras diferentes. O trabalho
morto seria a paisagem. O espaço seria o conjunto do trabalho morto (formas
geográficas) e do trabalho vivo (o contexto social). Há uma adequação da
sociedade - sempre em movimento - à paisagem. A Sociedade se encaixa na
paisagem, supõe lugares onde se instalam, em cada momento, suas diferentes
frações” (pag 73)
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