19 de nov. de 2019

Livro Metamorfoses do Espaço Habitado - Milton Santos - resumo, resenha, palestra, aula

6 - Paisagem e produção: os instrumentos de trabalho

Na medida em que a paisagem vai ficando mais “artificial” é possível identificar claramente a intervenção humana em termos de produtividade. Através das técnicas os instrumentos de trabalho são aperfeiçoados se tornando cada vez mais eficientes “os instrumentos de trabalho estão ligados ao processo direto de produção, isto é, produção propriamente dita, também o estão a circulação, distribuição e consumo” (pag 66). A paisagem urbana é resultado da eficiência destes instrumentos, no entanto nem todos os instrumentos tem a mesma idade (ou seja, uns são mais sofisticados que os outros o que resulta em uma intervenção maior ou melhor). Daí o fato das grandes cidades serem tão heterogêneas (tão diferentes umas das outras e diferentes mesmo em aspectos internos - bairros, ruas, regiões etc). Essa heterogeneidade é resultado dos diferentes instrumentos de trabalho e seus diferentes tempos e diferentes eficácias.

“A paisagem não se cria de uma só vez, mas por acréscimos, substituições; a lógica pela qual se fez um objeto no passado era a lógica da produção daquele momento. Uma paisagem é uma escrita sobre a outra, é um conjunto de objetos que tem idades diferentes, é uma herança de muitos diferentes momentos. Daí vem a anarquia das cidades capitalistas. Se juntos se mantêm elementos de idades diferentes, eles vão responder diferentemente as demandas sociais. A cidade é heterogeneidade de formas, mas subordinada a um movimento global. O que se chama desordem é apenas uma ordem do possível, já que nada é desordenado. Somente uma parte dos objetos geográficos não mais atende os fins de quando foi construída. Assim a paisagem é uma herança de muitos momentos já passados” (pag 66)

A cidade é resultado nestas intervenções produtivas de tempos diferentes resultando em um conjunto de sistemas integrados, mas de tempos diferentes. Uns mais eficazes dos que os outros, mas todos integrados. Então uma região que contém um conjunto de galpões desativados que serviam de fábricas a um século atrás não está dissociada com a lógica da cidade, mas apenas está em um tempo mais “lento”. Na medida em que esses galpões dão lugar a prédios residenciais essa região volta a ter o “mesmo tempo da cidade”, mas em termos de lógica nunca deixou de estar na cidade. Apenas o tempo era diferente e o tempo altera a função do objeto no espaço geográfico...

7 - Uma permanente mudança
As cidades estão em permanente mudança porque as intervenções produtivas produzidas em seu meio estão em constante mudança (por conta das inovações técnicas) o que provoca “tempos diferentes” de intervenção. Umas mais sofisticadas e outras nem tanto. 

Os sistemas técnicos são fundamentais para compreensão a transformação espacial “Através de novas técnicas vemos a substituição de uma forma de trabalho por outra, de uma configuração territorial por outra. Por isso, o entendimento do fato geográfico depende tanto do conhecimento dos sistemas técnicos” (pag 67). A paisagem não é um dado inerte, mas está sujeita a constantes mudanças porque as novas técnicas estão sempre avançando na tarefa de transformar a “natureza natural” em “natureza artificial” afim de adaptar tudo para o melhor desempenho produtivo do ser humano. Por isso “os tempos” variam muito nas grandes cidades...

10 - O que é o espaço

Já é possível concluir que paisagem e espaço não são sinônimos, pois um representa um “tempo” (paisagem) e outro representa o “movimento” (espaço). Então “O espaço seria um conjunto de objetos e de relações que se realizam sobre esses objetos; não entre estes especificamente, mas, para os quais eles servem de intermediários. Os objetos ajudam a concretizar uma série de relações. O espaço é resultado da ação dos homens sobre o próprio espaço intermediados por objetos, naturais e artificiais” (pag 70). Pensar o espaço é pensar em intervenção, em movimento, em técnicas e transformação espacial.
  
11 - A paisagem não é o espaço

Poderíamos afirmar que a paisagem é uma “imagem parada” da realidade, mas toda realidade é fruto de intervenção humana que resulta em transformação material e não existe transformação material sem relacionamento social. Então a paisagem também contempla movimento e ação, mas em uma escala muito diferente do espaço geográfico: “a paisagem é diferente do espaço. A primeira é a materialização de um instante da sociedade. Seria, numa comparação ousada, a realidade de homens fixos parados em uma fotografia. O espaço resulta do casamento da sociedade com a paisagem. O espaço contém o movimento. Por isso, a paisagem e o espaço são um par dialético. Complementam-se e se opõem” (pag 72).

Ao passar pelo centro de São Paulo as 15 horas da tarde todos sabem que a paisagem não é a mesma as 8 horas da manhã ou as 18 horas da tarde. São 3 diferentes momentos que geram diferentes paisagens justamente por conta do movimento de pessoas. Não podemos descrever o centro de São Paulo como “calmo” ou “agitado” porque dependemos da variante “tempo” para definir uma coisa ou outra justamente pelo “movimento” diferenciado que existem entre um “tempo” e “outro”. Nós só compreenderemos esses diferentes “tempos” em razão direta do “modelo de produção” (o horário das 8 a entrada de trabalhadores e as 18 horas saída de trabalhadores) que tem o poder de alterar a paisagem.

O chamado “trabalho morto” (a construção, os prédios, a rua que foram construídos por pessoas via interação social em um dado momento histórico - formas geográficas, objetos geográficos) revela somente parte da lógica produtiva, mas é o trabalho vivo (o contexto social de cada época em razão direta do modelo produtiva vigente no período) é que revela o verdadeiro espaço. A conjugação dos dois (espaço e paisagem) é fundamental “É a maneira com que se dá a produção e o intercâmbio entre os homens que dá um aspecto à paisagem. O trabalho morto (acumulado) e a vida se dão juntos, mas de maneiras diferentes. O trabalho morto seria a paisagem. O espaço seria o conjunto do trabalho morto (formas geográficas) e do trabalho vivo (o contexto social). Há uma adequação da sociedade - sempre em movimento - à paisagem. A Sociedade se encaixa na paisagem, supõe lugares onde se instalam, em cada momento, suas diferentes frações” (pag 73)








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