15 de nov. de 2019

Livro "A condição pós-moderna" - David Harvey: 16 – A compreensão do tempo-espaço e a ascensão do modernismo como força cultural


16 – A compreensão do tempo-espaço e a ascensão do modernismo como força cultural

A velocidade sempre foi o elemento norteador das políticas que visavam a construção do espaço através do domínio do tempo. Não era apenas necessário construir o espaço geográfico, mas era preciso construí-lo com “velocidade” a ponto de sempre criar a sensação de “atraso” nos demais atores sociais. Essa desigualdade sempre foi motivo de atrito entre as classes sociais e de crises como as de 1848.

Neste período fica claro que a questão não é somente construir o espaço geográfico através do domínio do tempo em si, mas era preciso colocar um ritmo incessante não somente em termos de produção industrial, mas de transformação social (ritmo das pessoas) porque uma não poderia se concretizar sem a outra. Para aumentar a produção era preciso aumentar a circulação de bens de consumo e para aumentar essa circulação era preciso imprimir um ritmo acelerado na sociedade. O padrão a ser seguido deve ser obedecido e as diferenças não somente de aceitação (aceitar o não aceitar os padrões impostos), mas também as diferenças de ritmo (aceito o padrão, mas não consigo seguir o ritmo das transformações) eram ambos tidos “fora da curva”.

Porque ambos “atrasavam” o progresso “O Estado esmaga o tempo ao reduzir as diferenças” (248). Ao toque do tambor todos devem remar no mesmo ritmo para que a nau seja eficiente nas suas manobras e chegue a o destino com segurança. A desconfiança de alguns filósofos sobre essa produção espacial e ritmo que ela estava se dando era mais do que clara como bem afirmou Nietzsche sobre os valores individuais que estavam sendo postos a baixo pela modernidade urbana “Nietzsche captou o impulso essencial em termos filosóficos em a Vontade de Poder. O niilismo – condição em que os valores mais elevados se desvalorizam – esta a nossa porta como os hospedes mais sinistros” (pg 248). Esses “hospedes sinistros” eram justamente a emergência do efêmero como valor supremo de uma sociedade onde se vive uma situação onde

“(...) um vir a ser que não conhece saciedade, desgosto nem exaustão, este é o meu mundo dionisíaco (O Deus grego da loucura, do prazer sem limites e sem objetivo algum a não ser o prazer momentâneo) do eternamente autocriado, eternamente autodestruído, este mundo misterioso do dúplice deleite voluptuoso, meu além do bem e do mal, sem alvo a não ser que o júbilo do circulo seja em si mesmo um alvo” (pg 249)         

Este é o retrato do homem moderno sob a ótica pessimista de Nietzsche, mas que todavia seria a cópia fiel mais otimista do retrato do homem na pós-modernidade. Muitos outros filósofos da “resistência” também viam essas transformações do tempo e, principalmente, do ritmo como uma estratégia que levaria o homem a uma situação de caos existencial. Outros assumiam essa possibilidade, mas de uma maneira menos radical entendendo que esse homem pré-moderno ainda poderia ser revivido no tempo oportuno “na fria cidade moderna assolada pelo tráfego da régua de cálculo e dos cortiços a pitoresca praça reconfortante pode despertar lembranças do passado burguês desaparecido. Essa lembrança especialmente dramática vai nos inspirar a criar um futuro melhor livre do filistéismo e do utilitarismo” (pg 251)

Tudo indicava que o capitalismo e sua crescente necessidade de ordenamento levariam a regimes totalitários onde o “controle” e formação de um “novo homem” formato a partir desta premissa de “organização” era apontada como o futuro mais promissor para a humanidade. A “régua de cálculo” nazista e comunista mostraram como seria essa humanidade e apesar da “democracia” ter sido vencedora diante dos regimes “mais extremos” a “régua” não foi abandonada, mas usada de maneira menos ostensiva. Diante do caos do sentido do “vir a ser” que a pós-modernidade colocou o mundo ao substituir esse termo pelo “vir a ter” é preciso repensar a ideia de “regimes opressores” para muito além do controle do corpo propriamente dito...




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